Bom Ano Novo e “Em defesa da escrita”
- Calíope Papaia

- Jan 5
- 3 min read
Updated: Jan 15
Quando chega o novo ano, temos sempre vontade de fazer mais, fazer de novo, fazer mais a fundo, com mais força, mais rápido, ir mais longe. É como se, ao passar a meia-noite, nos fosse dada a hipótese de recomeçar.
Claro que, se temos batalhas a travar na nossa vida, elas não desaparecem por ser meia-noite; mas, mesmo assim, podemos procurar uma coisa pequenina que possamos fazer de diferente.
Venho aqui defender que essa coisa seja escrever: escrever mais, escrever diariamente, ou sempre que se possa, escrever à mão, no computador ou no telemóvel, escrever muito, escrever pouco, escrever prosa ou poesia, escrever um diário secreto ou um blogue para toda a gente ver.
Escrever aguça a mente, clarifica os problemas e ajuda a avaliar as soluções. Escrever permite-nos registar o nosso presente, reconciliarmo-nos com o passado ou imaginar o futuro. Permite recordar quem está ausente, surpreender quem está presente, arrumar a nossa mente, destralhar os nossos sentimentos, reciclar velhas ideias e reimaginar a nossa história.
Hoje em dia escrevemos muito e comunicamos muito por escrito em redes sociais e aplicações de messaging, mas raramente escrevemos sem uma necessidade comunicativa; não escrevemos por lazer, para nós, ou para nos aliviarmos de algo. É verdade que podemos falar, mas o processo de escrita dá-nos tempo para pensar, para avaliar, para limar as arestas do nosso pensamento, para procurar a palavra certa e para eliminar o que está a mais e não é o cerne da questão.
A linguagem, em geral, e a escrita como suporte, são ferramentas poderosas para nos mudarmos e nos reconciliarmos com o mundo e connosco próprios. Não o digo com leveza: a nossa linguagem reflete e ajuda a moldar o nosso pensamento. Há correntes da psicologia que assentam, em grande medida, em revermos a nossa linguagem e, assim, mudarmos a maneira como enquadramos o mundo.
Dito isto, como começar?
Há várias maneiras de escrever, mas às vezes pode parecer assustador olhar para um documento ou uma folha em branco. Por isso, vou falar aqui de algumas coisas que se podem fazer.
Escrita livre
Neste tipo de escrita, é só sentar e escrever. Seja o que for. Nem que seja só para dizer que não sabe o que escrever. Para ser menos assustador, pode colocar um temporizador; comece com apenas 2 a 5 minutos. É bom para deixar tudo sair, sem se preocupar com a correção. É para desanuviar.
Exemplo: Quando tive uma situação desagradável com uma entidade do Estado (que não será mencionada), vim de lá tão frustrada e furiosa que me sentei e teclei até ficar cansada. Quando parei, estava vazia, não tinha mais nada a dizer sobre o assunto e sentia-me leve, como se um peso me tivesse saído de cima. Nunca mais pensei nisso ou, quando penso, já não ativa as emoções fortes que tive naquela altura. É como se tivesse tido a última palavra.
Escrita elicitada
Vou incluir aqui todo o tipo de escrita que tem, digamos, um “tema”. Coisas possivelmente mais estruturadas e viradas para um objetivo em particular. Por exemplo, o uso de prompts (pedidos/frases que orientam o processo) ou de diários de gratidão. Pode ser mais fácil no início, mas pode tornar-se mais complicado explorar livremente os temas que desejamos.
Exemplo: A certa altura, fazia o Year Compass, um livrete que nos permite fazer o balanço do ano e planear o seguinte. Inclui muitas perguntas de autoanálise, onde podemos refletir sobre vários aspetos de nós próprios, do que fizemos e do que queremos fazer. É um processo mais estruturado e guiado, com uma finalidade.
Claro que, depois, é possível explorar ainda outros aspetos, como o tipo de linguagem ou a estrutura do texto. Por exemplo, usar uma escrita mais visual, como num argumento de um filme, ou mais subjetiva, como num ensaio narrativo. Podemos escrever diálogos, cartas para enviar (ou não), romances, poesia, contos, etc.
A questão é: não há certo nem errado. Não é possível “falhar” na escrita. Só se falha não fazendo.
Portanto, este ano, escreva. Seja pouco ou muito, como quiser, mas escreva.
Bom Ano Novo.
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